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09/03/2010 | 08:59 - AS APOSTAS DE TRABUCO PARA REINVENTAR O BRADESCO

As apostas de Trabuco para reinventar o Bradesco
Menos diretores e treinamento de executivos nos EUA são parte da estratégia para capturar a classe média emergente

Amador Aguiar, o fundador do Bradesco, era um banqueiro de hábitos peculiares. Usava sapatos sem meia e criava leões e um tigre num zoológico particular. O sucessor, Lázaro de Mello Brandão, tem a aparência pacata de padre do interior, mas sempre foi uma das figuras mais influentes do País. Depois dele veio Márcio Cypriano, um trator no trabalho. Em comum, tiveram a satisfação de pilotar o maior banco privado do País.

Na vez de Luiz Carlos Trabuco Cappi, há um ano presidente do banco, o destino pregou uma peça: após 47 anos seguidos de liderança absoluta na banca privada, o Bradesco perdeu o posto com a fusão de Itaú e Unibanco, no fim de 2008 ? quatro meses antes da posse de Trabuco.

De lá para cá, dia e noite, dia após dia, Trabuco ouve a mesma pergunta: como vai fazer para retomar a liderança? "Perguntavam aqui dentro, fora, os amigos, os formadores de opinião, todo mundo. Era até uma cobrança", diz. "Não me sinto premido pela busca da liderança. O objetivo é reduzir a distância entre a gente e o banco que tem a liderança neste momento", completa, acentuando com uma arregalada de olhos o "neste momento". Para consumo público, porém, a resposta padrão passou a ser: "A liderança não é uma obsessão."

A médio prazo, não existe saída fácil. Não há um banco que o Bradesco possa comprar para anexar os R$ 100 bilhões de ativos que hoje o separam do Itaú Unibanco. A alternativa, portanto, foi apostar no longo prazo e naquilo que o Bradesco já tem. A ideia é aproveitar ao máximo a capilaridade do banco, o único radicado em todos os municípios do País, para capturar a classe média emergente.

Assim que essas pessoas cruzarem a linha da pobreza, encontrarão gerentes do Bradesco oferecendo, além da conta corrente, crédito, seguros e tudo o que o banco conseguir imaginar. Trabuco aposta que, em 2020, o sistema terá 220 milhões de contas correntes, o que daria uma média de uma por pessoa. Hoje, são cerca de 130 milhões para 190 milhões de habitantes. O objetivo dele é pelo menos manter a atual participação onde já tem 20% do mercado e elevar até esse patamar nas áreas onde a fatia do Bradesco é menor. Num mercado em expansão, como o Bradesco imagina, isso significaria um avanço poderoso.

Uma das providências já adotadas pela gestão Trabuco para alcançar as metas foi a recriação das diretorias regionais (até agora, 15), com a missão de identificar rapidamente o movimento da clientela potencial, algo que ele acredita ser impossível a partir de São Paulo.
Outra foi uma expressiva diminuição da diretoria executiva ? de 21 para 14 profissionais. "Isso dá mais agilidade ao banco", diz o analista de bancos da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu. Trabuco frisa que não se tratou de uma limpeza. "Nessa redução foram aproveitados desejos pessoais, mudanças de planos de vida, regras do próprio estatuto", afirma.

Por fim, Trabuco adotou uma mudança radical no metabolismo do banco: está mandando seus principais executivos ao exterior para aprender inglês e para estudar nas melhores faculdades de administração dos EUA, como Harvard, Columbia, Wharton e Chicago. Em 2009, foram sete profissionais. Neste ano irão mais de 40.
Para entender o significado da iniciativa, é preciso conhecer a genética do Bradesco, uma organização única. Tradicionalmente, a direção do banco é formada por pessoas de origem simples, que começam como caixas ou escriturários, e permanecem por lá até a aposentadoria. Boa parte deles estudou em faculdades de segunda linha, dá duro em cursinhos de inglês e não vê muita graça em jogar golfe. Fora o banco, o assunto predileto é o futebol.

Esses senhores de hábitos simples sempre entenderam de banco como poucos, tanto que ficaram por quase cinco décadas à frente dos outros. Mas o mundo mudou rápido e Trabuco pretende que eles se atualizem na mesma velocidade. "Precisamos profissionais extremamente bem preparados, agressivos, que saibam surpreender, porque vão participar do momento mais competitivo que já tivemos", diz. Além do Itaú Unibanco, o Bradesco tem outros dois concorrentes de peso: Banco do Brasil e Santander.

Trabuco é um produto típico do Bradesco. Tem 58 anos, 42 deles no banco. Assim como Amador Aguiar e Lázaro Brandão, entrou por baixo numa agência do interior (no caso, escriturário em Marília). Foi caixa, subgerente, trabalhou na área de turismo e até numa empresa de inseminação artificial de animais que o banco possuía.
"A escolha do presidente executivo decorre de uma análise dos resultados nas várias áreas do banco em que atuou", afirma Brandão, hoje presidente do Conselho de Administração. "Trabuco percorreu todas as áreas e, particularmente em seguros, trouxe uma contribuição excepcional."

Quando Trabuco assumiu o comando da seguradora, a área respondia por pouco menos de 27% do lucro do grupo. No ano passado, chegou a 35%. "Ele enxergou antes a importância da área de previdência privada e inventou vários produtos", afirma um executivo concorrente.
Fiel ao estilo discreto do Bradesco, Trabuco vai aos poucos implementando sua agenda. "Não sou dono do banco, mas tenho espírito de dono. O espírito de dono é fundamental, te faz capaz de cobrar, de liderar metas, de fazer uma revolução silenciosa através da condução dos 90 mil funcionários e dos 23,6 mil gerentes", diz.

Formado em filosofia pela USP, Trabuco é dono de raciocínio requintado, mas gosta de parecer simples ? outra marca forte do Bradesco. É amável, guarda o nome de todos (característica que faz dele uma pessoa simpática ao olhos do interlocutor) e gosta de debate.
Talvez por essa formação humanista, Trabuco tem procurado implementar mudanças por meio de consenso. "Acredito em decisões colegiadas. Não acredito em decisão corporativa pelo voto, pois quem perde acaba torcendo contra", diz.

"BRAINSTORM"
Além da tradicional reunião da diretoria executiva, toda segunda-feira, Trabuco instituiu um encontro às quarta-feiras, sem pauta definida. "Propus a reunião e o pessoal aceitou. Na primeira, se fala pouco, na segunda se fala mais... É uma reunião muito criativa", diz. "O consultor vai chamar isso de "brainstorm"", ironiza. Até agora, aliás, não contratou consultorias para ajudar nos processos.

O vice-presidente Norberto Barbedo, que, entre outras áreas, é responsável pelo banco de investimentos do grupo (Bradesco BBI), aprova o "brainstorm". "Tem sido muito positivo. A divergência de opinião sempre existe, mas, no banco, nunca extrapola os limites."
No mercado financeiro, o estilo de gestão de Trabuco ainda passa quase despercebido. "Não me sinto confortável para falar sobre ele porque o conheço pouco. O que posso dizer é que, em 2009, se consolidou entre os investidores a fama do Bradesco como um banco conservador", afirma a analista da Corretora Ativa Laura Lyra.

Ela dá como exemplos a atuação do banco na área de crédito ? a carteira cresceu 6,8% no ano, enquanto a média do mercado foi 14,9% ? e a perda do negócio com a Porto Seguro para o Itaú. "O banco deixou passar essas oportunidades e, por isso, foi "punido" pelo mercado", diz Laura. Nos 12 meses até sexta-feira, as ações preferenciais (PN) do Bradesco acumulavam alta de 77%. Em igual intervalo, as do Itaú Unibanco avançavam 93,5% e as ordinárias (ON) do Banco do Brasil, 138%.

Sobre a Porto Seguro, o Bradesco afirma não ter se interessado pelo modelo oferecido. Quanto ao crédito, os bancos privados foram mais cautelosos do que os públicos na crise.
Pelo estatuto, Trabuco terá de se aposentar aos 65 anos, o que dá a ele mais sete no cargo. Nesse tempo, tentará comprovar na prática um provérbio polonês citado na conversa com o Estado: "às vezes, a chave da solução de nossos problemas está na nossa porta." (Fonte: Estadão)
 
 
 
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